Repressão militar e terrorismo de Estado em Volta Redonda (1984-1989): contrarrevolução preventiva e ditadura “tardia”

  • Marcos Aurélio Ramalho Gandra PPGH-UFF

Resumo

A Revolução Burguesa nos países da periferia do capitalismo, ao combinar transformação capitalista e dominação burguesa, possibilitou uma pragmática dissociação entre desenvolvimento capitalista e democracia. As ações políticas de classe das burguesias periféricas foram fortemente reacionárias, mostrando que sua forma de dominação autocrática impunha, se considerassem necessárias, ditaduras de classe “preventivas”.


O Estado, com seus poderes de ação e coação, e “autonomia relativa”, tem capacidade de fazer parecerem nacionais os interesses das classes dominantes, mesmo sem descuidar do recurso da associação com os militares.


O debate sobre a transição "lenta, gradual e segura" na democratização sob controle dos ditadores, é contemplado nas formulações que nomeiam o regime iniciado em 1985 como uma "democracia tutelada", de equilíbrio instável, onde os militares abririam mão do recurso ao golpe desde que ficassem “intocáveis”. Os acontecimentos no recorte espaço-temporal analisado (Volta Redonda, 1984-1989) acirraram as contradições do período, e a repressão militar desencadeada, mesmo após a promulgação da nova Constituição em 1988, constituiu grave caso de violação dos direitos humanos no país.


O Relatório Final da Comissão Municipal da Verdade de Volta Redonda (CMV-VR) apontou para a ocorrência de uma “Ditadura tardia” na cidade, pondo em questão a datação “oficial”, que encerra a Ditadura Civil-Militar em 1985, evidenciando o recurso a expedientes autoritários e fascistas no intuito da perpetuação da dominação autocrática-burguesa, como nos quatro últimos casos de violações dos direitos humanos investigados por esta Comissão - i: continuidade dos serviços de espionagem e vigilância sobre operários da CSN e população da cidade e região após o fim oficial da Ditadura; ii: invasão da cidade pelo Exército, e mesmo assim saindo derrotado da cidade; iii: explosão terrorista, por forças paramilitares de direita, do Memorial 9 de Novembro projetado por Oscar Niemeyer em homenagem aos operários mortos, o que inclui o assassinato de testemunha-chave; iv: morte suspeita do ex-sindicalista e prefeito recém-eleito da cidade, Juarez Antunes em acidente de carro.


O trabalho da CMV-VR permitiu o inédito acesso à enorme documentação produzida pela empresa e sua “polícia política”,  o que abre frentes de pesquisa sobre importantes períodos de nossa história.

Publicado
Set 30, 2020
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GANDRA, Marcos Aurélio Ramalho. Repressão militar e terrorismo de Estado em Volta Redonda (1984-1989): contrarrevolução preventiva e ditadura “tardia”. Entropia, [S.l.], v. 4, n. 8, p. 126-143, set. 2020. ISSN 2526-2793. Disponível em: <http://entropia.slg.br/index.php/entropia/article/view/180>. Acesso em: 30 out. 2020.